sábado, 26 de abril de 2014

As cocadas da vovó

As festas religiosas ainda são muito importantes para o Maranhão. O povo ainda dá muita importância para a fé e isso se reflete em todos os municípios do Estado. Em cada um deles, com menor ou maior intensidade, há um santo padroeiro ou mesmo uma religião predominante.
Por sermos um país oficialmente católico, os municípios em sua maioria possuem santos padroeiros e na mesma frequência, festejos religiosos tradicionais, que dão movimento aos lugares.
É assim em todo o Estado do Maranhão e é assim em Humberto de Campos, cidade em que passei praticamente todas as férias da minha infância e adolescência.
Em Humberto de Campos, o festejo mais popular é o em homenagem a Nossa Senhora Sant’Ana, mãe de Maria e avó de Jesus.
Antigamente, o festejo tinha início em meados de julho com uma procissão pequena, percorrendo as quatro principais ruas da cidade. Durante todo o festejo, as noites tinham ladainha com algumas partes sendo rezadas e cantadas em latim.
No dia 26 de julho, dia da Santa, o festejo religioso tinha seu ponto alto com nova procissão, dessa vez dando uma volta maior no município, que culminava com uma missa animada que se encerrava com um leilão.
O leilão da igreja era organizado pelas beatas da cidade, incluindo minha querida vó Concita. Cada uma das devotas de Sant’Ana oferecia de bom grado um prato ou alguma “joia” para ser leiloada. Valia tudo, desde o velho galeto assado com farofa, panela de pressão, vasinho de flores de plástico, conjunto de guardanapos de crochê, toalhas de prato pintadas ou bordadas à mão, bolo de tapioca, de macaxeira ou de massa e ainda o que não podia faltar: as cocadas da vovó.
A roda do leilão começava a se organizar um pouco antes da missa terminar e bastava os músicos encerrarem suas participações dentro da igreja, para que se posicionassem ao lado da roda de leilão e animassem a porta da igreja. O movimento era grande e todo mundo punha sua melhor roupa para prestigiar Nossa Senhora Sant’Ana.
O leilão tinha uma dinâmica própria. As pessoas iam ficando por ali enquanto o leiloeiro chegava para tomar conta da roda. Lembro de vários leiloeiros durante a minha infância e adolescência. A coisa era informal a ponto de serem convocados para tal função, os amigos que estavam de bobeira na hora do leilão ou que eram previamente convidados, mas não com tanta antecedência assim.
Lembro como se fosse hoje, toda a rotina da minha vó elaborando nossa “joia” para Nossa Senhora Sant’Ana: o coco era ralado desde cedo e colocado num alguidar para descansar. Depois do almoço ela vinha toda graciosa para a cozinha e começava a fazer as cocadas. Depois de cozidas, ela espalhava na mesa para cortar e esperar secar. Entre um cochilo e outro dela, eu sempre roubava umas ao mesmo tempo que pedia perdão à santa.
As cocadas tradicionais ficavam branquinhas e as de maracujá ficavam amarelinhas decoradas com algumas sementes da fruta coladinhas.
As cocadinhas eram acomodadas em pratinhos e cobertas com guardanapos de crochê feitos por ela mesma. Ficava uma lindeza! Levávamos para a missa até a hora do leilão e eu aguardava ansiosa até a hora H.
O leilão acontecia com o leiloeiro fazendo brincadeiras e vendendo as joias aos expectadores de forma muito lúdica. Sorríamos sempre e cada um que tava assistindo dava seus lances aleatoriamente. As figuras mais importantes da cidade, como o Prefeito, o delegado e o médico, por exemplo, eram meio que obrigados a arrematar “joias” para ajudar na festa da padroeira. Os comerciantes mais ricos da cidade e os filhos ilustres, também.
Hoje, sei que o que me interessava no leilão era ter a certeza de que as cocadas da vovó iriam ser leiloadas por um preço razoável. Acho que dessa forma as pessoas dariam valor ao trabalho dela e que nossa “joia” era importante diante das outras. Algumas vezes, nós mesmos arrematávamos o pratinho...
Hoje sei também que o que ficou depois disso tudo, além das lembranças incríveis, foram as amizades que construí ao longo de todo esse tempo e o amor que fui dando para aquele município que tão bem me acolheu e me acolhe até hoje. O festejo ainda existe, mas não tenho certeza se ainda tem leilão. As festas de hoje possuem uma conotação diferente para a maioria dos adolescentes e é uma pena que festas religiosas e populares estejam ganhando proporções sertanejas, forrozeiras e funkeiras, embora eu entenda que a cultura é mesmo mutante e se transforma em outra para logo ser novamente transformada.

Minha avó continua participando ativamente das atividades da igreja, mesmo tendo se passado mais ou menos uns 20 anos e graças a Deus e a Nossa Senhora Sant’Ana, a família continua devota e rezando para aquela que sempre nos mobilizou e nos alegrou nos meses de julho.

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