domingo, 16 de fevereiro de 2014

Pregoeiros: novo capítulo na história de São Luís.


A venda de comidas e utensílios sempre chegou para os ludovicenses de uma forma muito inusitada: pelos Pregoeiros, vendedores que carregavam seus produtos nas mãos e gritavam bordões musicais a fim de divulgá-los pelas ruas de São Luís.

Conta-se que foi a partir do século XIX que esses personagens surgiram, conforme a cidade foi crescendo, para suprir as necessidades da população, principalmente dos mais abastados. A venda de porta em porta significava um luxo para os moradores e um "ganha pão" muito honesto para os vendedores.
Essa disputa corpo a corpo feita pelos pregoeiros, contrapondo o comércio local, veio a transformá-los com o tempo, em ícones da cultura ludovicense.

Os pregoeiros passavam pelas ruas da cidade sempre ao amanhecer ou ao entardecer gritando o nome dos seus produtos para que as donas de casa saíssem às portas com suas bacias para comprar produtos e utensílios, que vinham acondicionados das mais variadas formas: pendurados em pedaços de madeira especialmente talhados para isso (como nas fotos que ilustram esse texto), em cofos feitos de palhas, em latas grandes de querosene reaproveitadas, em tabuleiros e em caixas preparadas para aquele trabalho.

Os pregoeiros, que tinham esse nome porque gritavam pregões de seus produtos, se espalhavam por toda a cidade e com o tempo, ficavam conhecidos das donas de casa, se transformando até em amigos para vida inteira. 
Talvez o bordão mais famoso seja "pamooonha pamooonha", sempre cantado nas noites dos invernos ludovicenses (período do milho verde). Essa cantiga embalou a vida de muita gente e soa como uma verdadeira música aos meus ouvidos. 

Os pregoeiros mais comuns de que se tem notícia, no entanto, eram: padeiro, vendedor de frutas, principalmente bananas, jornaleiro, carvoeiro, verdureiro, peixeiro, vendedor de camarão, caranguejo e siri, sorveteiro, vendedor de pamonha, vendedor de pirulitos, vendedor de juçara, além dos vendedores de utensílios como pá de lixo, penicos, lamparinas, espanadores, vassouras e ainda compradores de ferro velho e garrafeiro. Eram todos homens fortes e dispostos, porque há de se reconhecer que era (e é) um trabalho árduo. Os produtos eram levados nas mãos e quando muito, em carros de mão, que também dependiam da força humana para chegar até seus clientes.

Hoje em dia ainda existem pregoeiros à moda antiga, mas estão muito raros. Os que ainda oferecem seus serviços na casa da minha mãe, só para termos uma referência, é o vendedor de Ideal (bolinho de farinha de milho e de farinha de arroz, "ideal" para acompanhar uma xícara de café), vendedor de juçara, pamonha e o comprador de panelas velhas, mas com um detalhe muito importante: todos oferecem seus produtos e serviços em bicicletas, porque convenhamos, a cidade não é mais a mesma, as distâncias são outras, o timing da vida é completamente diferente e o momento em que vivemos não mais permite que esperemos o maxixe chegar à porta, quando o vendedor achar que deve.

Mas apesar de os pregoeiros estarem virando lendas para as novas gerações, nas praias de São Luís ainda é possível encontrar um tipo mais moderno de pregoeiro: o vendedor de frutas e petiscos!
Esses não "cantam" seus produtos para os clientes, não tem bordões que encantam, mas fazem um trabalho corpo a corpo importante, já que saem oferecendo suas delícias exaustivamente a todos que estão na praia.

Não precisa muito tempo desde a chegada à praia para que os vendedores apareçam em todas as mesas oferecendo frutas e petiscos. Eu mesma, em minha última visita a São Luís, não resisti e comi cajá do Pará, fruta que só encontro com os vendedores nas praias. Outras frutas clássicas que sempre compro são: siriguela, jambo, pitomba e abricó, que quase nunca acho em feiras e supermercados.

Castanhas de caju ou amendoins, ovos de codorna e camarão "salpreso" formam a tríade de petiscos comuns nas mesas dos bares da praia. O ovo de codorna cozido que sai quentinho do isopor, eu não resisto!
Os vendedores de siri e caranguejo são exemplares antigos em tempos atuais e o vendedor de ostra é realmente a cara da modernidade, mas que me lembra um passado recente.

Não devemos esquecer também dos vendedores de coco, de queijo coalho, sanduíches naturais e outras modernidades comuns da nossa época, que com tantas opções e facilidades, os considero uma nova versão dos nossos pregoeiros, porque criam formas de chamar a atenção dos clientes, indo onde o público está, detalhe que o ludovicense gosta e muito! Aliás, essa mania de querermos tudo à mão é uma característica muito particular nossa e não só nesse aspecto. Existem inúmeras outras situações em que se percebe um certo "comodismo" da população. 

A única coisa boa disso tudo é que novos postos de trabalho sempre poderão existir e que mesmo sem querer, essa peculiaridade fez nascer um dos capítulos mais bacanas da história popular de São Luís.



Jornal Cazumbá, fevereiro 2014.

Fotos tiradas nos meses de dezembro de 2013 e janeiro de 2014.

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