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Chuva de escama de peixe

Era por volta do meio-dia e o sol estava generoso em nossas moleiras.
Atravessamos o Centro Histórico a pé, aproveitando a visão dos prédios e das pessoas em direção à Casa das Tulhas, nosso ponto de encontro mais que especial.
Avistamos de longe que a mesa já estava reservada com dois amigos que já tinham iniciado a festa comendo uma porção de “assado de panela” na Barraca da Maria*.
Sentamos e brindamos a primeira cerveja. Gelada, desceu rápida e gostosa, incrementada, talvez, pelo calor avassalador de São Luís.
Bastaram algumas ligações para que outros amigos fossem chegando e aumentando a mesa progressivamente. A felicidade não tinha mais lugar naquele dia.  Os assuntos não tinham fim, as gargalhadas eram fáceis e a cada nova cerveja, mais animados e risonhos ficávamos.
A feira da Praia Grande tem mesmo esse poder de envolver as pessoas num clima de êxtase. O ambiente é muito simples, beirando a desorganização, é verdade. Não tem atmosfera chique e não tem instalações turísticas primorosas, mas carrega consigo uma aura ao mesmo tempo interiorana e de agitação.
Junto das mesas espalhadas pela feira, é possível encontrar galinhas, perus, capotes, plantas, postes e umas pedras em forma de bancadas para escamar peixes, afinal, antes de ser um ponto de encontro, é uma feira, com sua dinâmica muito peculiar.
Nesse dia de alegria, ficamos na feira noite adentro. O mundo foi girando e vários outros amigos passando, encostando, bebendo, contando piadas, cantarolando músicas do vasto repertório romântico ao fundo (composições de Odair José, Roberto Carlos, Zezo, etc), à medida que porções de petiscos tipicamente maranhenses iram forrando nossos estômagos.
Maria, dona da barraca, saiu num determinado momento com uma bacia de peixes frescos lindos. Ela precisava tratá-los para deixar tudo pronto para os fregueses do dia seguinte.
Com a maior naturalidade do mundo, assentou sua bacia de pescadas, peixes-pedras e peixes serras e começou a tratá-los bem ao nosso lado, ou seja, lavou-os, escamou-os e abriu para a limpeza das tripas e tudo isso, ali ao lado da nossa mesa animada e alegre.  A essa altura, não levávamos mais nada a sério, embora o cheiro do peixe tenha incomodado um pouco.
Maria cantarolou algumas canções populares, nos fofocou alguma coisa da época, participou da conversa e terminou seu serviço em público, lavando todos os peixes novamente no meio da feira e promovendo, de quando em vez, uma chuva brilhante de escamas pela feira.
Já era noite e saímos de lá inebriados. O maridão, na época namorado, divertiu-se como nunca e guarda em sua memória até hoje os ótimos momentos daquele dia. Promete que faremos outra dessa nas próximas férias.
Na manhã seguinte, após vermos as fotos na máquina fotográfica - nossa memória recente em imagens - para relembrarmos os acontecimentos, percebi que usava algo parecido com um bindi, aquele adereço que as indianas usam no centro da testa. Grande não foi a minha surpresa quando ao me olhar no espelho, vi uma escama de peixe seca, grudada bem no meio da minha testa!

Dedico a Eduardo Padilha (in memorian), Dadá, José Augusto, Igor Abrantes, Fábio Silva e Italo Genovesi.


*Maria é nome fictício.

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