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Caderno de Confidências


Perguntei para minha mãe o que significava a palavra “confidência” e ela me mandou ver no “pai dos burros”.
Foi a primeira vez que ouvi a expressão que por muito tempo substituiu a palavra Dicionário.
A intenção de mamãe com aquela ordem foi me familiarizar com o manuseio do "Aurélio" e também fazer com que eu descobrisse o significado exato da palavra. Eu estava curiosa para saber o que tanto as meninas tentavam desvendar com um tal “Caderno de Confidências”, a última moda adolescente em meados da década de 80.
Foi uma verdadeira febre. Todas as minhas amigas tinham um e a idéia era conhecer mais profundamente as pessoas e em especial, os meninos, é claro!
Lembro de algumas vezes chegar em casa com mais de três cadernos para responder e devolver no dia seguinte, onde várias outras meninas aguardavam.
Dada a quantidade de mentiras que escrevíamos, considero o Caderno de Confidências um dos precursores das mídias sociais. Poucas pessoas respondiam aquelas perguntas de acordo com suas convicções e sim, como ia ficar melhor diante dos outros leitores [tal como acontece hoje em dia]. É claro que fazíamos isso, influenciados pela pressão social da época e, principalmente, porque éramos adolescentes e por isso mesmo, imaturos.
Os caderninhos eram de todo tipo: com capa dura; com capinhas tipo brochura, mas encapados com papeis ou plásticos decorados; cadernos com folhas que tinham coraçõezinhos e florzinhas, com bichinhos e com os personagens de sucesso do momento.
As perguntas se iniciavam com as básicas “Qual seu nome, série e signo?” e iam se aprofundando à proporção que o número das páginas ia avançando. A personalidade de quem respondia ia se mostrando aos poucos com as perguntas sobre relacionamentos e namoros, muitas vezes copiadas das revistas adolescentes mais lidas na ocasião. Perguntas do tipo “Como você reagiria se visse seu namorado com outra?” eram comuns e desde aquele tempo, as ciladas de convivência eram colocadas à prova.

Os Cadernos de Confidências também serviam para que conhecêssemos algumas pessoas de longe. Era a ferramenta perfeita para conhecer os meninos das séries mais avançadas, já que existia uma separação: os alunos da oitava série (atual nono ano) pra frente, não se misturavam muito com os alunos das séries anteriores e os alunos do segundo grau então, nem davam “confiança” para nós, pobres mortais da sétima...

Os cadernos variavam de tamanho e a quantidade de perguntas também se modificava de acordo com a dona do caderno. Meninas mais tímidas focavam suas perguntas em coisas menos profundas como filme preferido, ator internacional, atriz nacional, etc. As meninas “mais saidinhas” inseriam perguntas mais capciosas e iam fundo no comportamento “homem x mulher”. Apenas uma coisa era comum em todos os cadernos: a última folha era dedicada aos pensamentos e recados para a própria dona! Tanto as filosofias de parede do Emílio Ayoub quanto as frases que líamos nas Revistas Carinho, Carícia e Capricho nos serviam de inspiração. Cada um deixava seu pensamento acreditando que estava contribuindo para o crescimento pessoal da amiga.

Lembro de ter respondido vários Cadernos de Confidências. Lembro também que os meninos respondiam causando frisson em nós que corríamos para ler tudo que eles tinham escrito na esperança de encontrar alguma dica que facilitasse nossas conquistas, mesmo muitas vezes, não adiantando nada.

É possível que os antigos Cadernos de Confidência tenham causado alguma injustiça social ou até mesmo enlaçado algum casal, mas serviam mesmo para que aguçássemos nossa curiosidade adolescente sobre as pessoas e sobre o mundo.

Confesso que adorei ter participado de tudo isso. Hoje essa lembrança parece muito distante.
Vendo as mídias sociais atuais, tenho a nítida impressão que escrever com caneta ou lápis parece arcaico, que não faz mais parte da cultura dos adolescentes e que digitar um texto parece o ponto de partida de tudo.
No meu tempo adolescente, o Caderno de Confidências era o facebook, o mundo corria num ritmo mais cadenciado e escutar o horóscopo diário era um hábito quase religioso. O guru de todas nós era o João Bidu e se ele dissesse que o dia ia ser ruim, era só esperar!

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