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O Natal de antigamente era mais gostoso...


No tempo que meu pai usava capanga, minha vó usava anágua, meu irmão tinha uma basqueteira, minha mãe vestia corpete e eu usava um kichute pra fazer educação física no colégio, os Natais tinham um sabor mais gostoso...
Naquele tempo o Natal demorava muito a chegar. Um ano pra acabar parecia uma eternidade...
Comemoro meu aniversário no primeiro dia do ano, logo, a minha contagem começava nessa data e até chegar o próximo Natal, lá se iam intermináveis muitos e muitos meses... Tenho grande desconfiança que esse ingrediente era o que tornava o mês de dezembro mais gostoso: o tempo passando devagar.
Sempre ganhei muitos presentes nesse período, já que apenas seis dias separam meu aniversário do Natal. Esperava ansiosamente pra chegar o final do ano, inclusive porque junto com todos esses presentes, vinham as desejadas férias!
Era muita coisa boa no mesmo período: férias, Natal, presentes, aniversário, Reveillòn e preparação para o carnaval.
Automaticamente quando chegava o mês de novembro, a atmosfera da cidade ia se modificando. Começavam a diminuir os ventos e a se formar o período chuvoso. As viagens de barco voltavam a ser liberadas e um calorzinho mais potente já começava a se fazer presente. Nessa mesma época eu já corria para as últimas provas do colégio. Era a hora de levar uma lembrancinha de Natal para a professora e de assistir todos os desenhos que passavam no Xou da Xuxa, já que estudei de manhã em todo o primário.
Ai, como dezembro tinha um gostinho especial...
O mês, ao contrário do resto do ano, passava rápido por causa dos intensos compromissos sociais da família. Haja barriga e tempo para tanta confraternização!
Era um tempo de fartura! Os supermercados ficavam cheios de comidas que só víamos nessa época, como castanhas portuguesas, frutas secas e cristalizadas, peru, panetones, a velha cidra, os espumantes chuva de prata, dentre outros e os vizinhos disputavam quem fazia a mais bonita, gostosa e farta ceia de Natal. Isso contava muito no currículo das famílias, podem acreditar!
Os mais velhos cozinhavam tanto, que a mesa só ficava pronta quase perto da meia-noite. Lembro que uma das grandes preocupações das cozinheiras da casa era não acabar o gás, vejam vocês. Nessa época, tinha-se vários botijões em estoque para que nada acabasse com o brilho da festa!
É claro que eu não poderia deixar de lembrar das comidas afetivas e não menos cafonas, que fazíamos na época: salpicão, arroz de passas e maionese. Tudo isso era acompanhamento para o famoso peru, comida obrigatória em nossos natais.
A cerimônia do Natal tinha um “quê” de respeito, de compaixão e de bondade. As pessoas eram tocadas por uma energia divina que fazia com que a noite da véspera de Natal se transformasse em algo mágico. Até roupa nova comprávamos para poder celebrar tudo com muita pompa e circunstância.
Os enfeites de Natal também sempre fizeram sucesso lá por casa. Mamãe sempre gostou de deixar a casa brilhando e cheia de papai Noel. Lembro de sinos, noeis, bonequinhos de neve e de travessas com motivos natalinos enfeitando a mesa.
A trilha sonora não era lá muito variada. Tocava Jingle Bells repetidas vezes até ninguém mais agüentar, ou melhor, até chegar meia-noite. Chegada a hora mais importante, vovó liderava as orações, a comida era liberada, trocávamos a música por outra mais animada e todos abriam seus presentes como se não houvesse amanhã.
Nessa época eu não mais acreditava em Papai Noel, mas já nutria um sentimento nostálgico por tudo aquilo. Quando se é criança, a festa em si é a coisa mais importante. A movimentação das pessoas, o fato de dormir mais tarde, de ganhar presentes, de vestir roupa nova, de ver a família reunida e de comer coisas gostosas faziam da festa do Natal o momento mais importante do ano.
Hoje, mal dá pra acreditar que o ano já está no fim e que vou ficar mais velha. Lembro do último Natal, como se tivesse acontecido há quatro meses. Também não consigo acreditar que ainda há pessoas que consigam ouvir o disco da Simone cantando músicas de Natal e principalmente, não entra na minha cabeça que o Natal este ano seja comemorado num final de semana, ou seja, não vai ter aquela mamata do velho recesso que a gente passa o ano todinho esperando!

Um Feliz Natal e um ano-novo-relâmpago cheio de muito ócio, viagens e gastronomia pra você!


Jornal Cazumbá, dezembro de 2011.

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