Pular para o conteúdo principal

“Haja Deus, quanta beleza e saudade dos antigos carnavais...”

Foto típica do carnaval maranhense: Cândido, Mamis, Edu, Lu, Josi e Karina com muita maisena!


Comprei semana passada três LP’s das escolas de samba do Rio de Janeiro. Dois da década de 90 e um da década de 80, mais precisamente o de 1986, para poder ouvir sem parar o samba da Beija-Flor “O mundo é uma bola”, que foi hit naquele carnaval.
Pena na loja que comprei não ter mais LP’s desse estilo. Seria capaz de comprar todos que meu dinheiro desse.
Cresci ouvindo samba-enredo. Minha família toda gosta muito e o Rio de Janeiro sempre influenciou os Estados do Nordeste e em especial, o Maranhão.
Vejam os times de futebol: há mais flamenguistas, vascaínos, botafoguenses e tricolores do que motenses e bolivianos em São Luís e não me venham com essa história de que no Maranhão não tem futebol (já ouvi muito perna de pau falando isso). Tem sim! É questão de amor e influência mesmo. Desde criança vejo os times do Rio fazendo a festa na Ilha.
E assim como no futebol, é no samba e no carnaval. A idéia do carnaval na cabeça das pessoas da minha geração era aquilo que víamos na TV: desfiles apoteóticos, mulheres peladas, ritmistas, bateria, o Clovis Bornay com sua pomposa fantasia e a Piná rebolando com a cabeça raspada.
Posso até dizer que tinha uma “coisinha” ou outra sobre a folia na Bahia e no Recife e seus maracatus, mas nada que pudesse ofuscar aquele momento de alegria e de empolgação.
Eu sabia todos os sambas-enredo cariocas porque os LP’s começavam a ser vendidos em dezembro e desde então, essa era a trilha sonora dos finais de semana da minha casa. Como no futebol, tinha torcida de escolas. Sempre me identifiquei com o Salgueiro, Beija-Flor e Grande Rio.
Lembro de deitar no sofá com o encarte e acompanhar o samba com a letra e aprender um pouco sobre a história do país ou sobre um homenageado qualquer. Isso fazia parte da minha vida e meus amigos (mais uma vez) não conseguiam entender essa atitude um tanto madura para a minha pré-adolescência.
Como eram interessantes, inteligentes e cadenciados os sambas. Relembro com uma nostalgia gostosa de tudo aquilo e das famosas “paradinhas” com seus mestres de bateria e os “puxadores” do samba, verdadeiros embaixadores daquela ilusão passageira chamada carnaval.

Quem não lembra do “Bumbum Paticumbum Prugurundum” do Império Serrano ou mesmo do refrão “Eu vou tomar um porre de felicidade, vou sacudir, eu vou zoar toda a cidade” da União da Ilha? Ou ainda de “Kizomba, a festa da raça” que fez a Vila Isabel campeã em 1988?


Do mês de dezembro até o carnaval, passando pelo Natal e ganhando força no Reveillòn, as escolas de samba do Rio de Janeiro animavam as mais variadas festas e bailes de carnaval juntamente com as seculares marchinhas, que faziam qualquer múmia levantar do túmulo, bastava escutar “alalaô ô ô ô ô” seguida de “ó jardineira porque estás tão triste”.
Todos estávamos acostumados a essa trilha sonora e de certa forma, era ela que dava o clima nostálgico às festas.
A música “Haja Deus” tema da Flor do Samba (1979) era outra que não podia faltar. Todos sabiam cantar e eu, embora já cantasse naquela época, só fui entender a letra recentemente, quando passei a estudar nossa cultura popular.
São Luís vivia também nessa época o auge dos seus bailes de clubes e só era chique quem tinha títulos do Jaguarema ou do famoso Grêmio Lítero Recreativo Português.
As festas eram muito animadas, com big bands e toda a high society ludovicense. Eu, claro, nunca tive título nenhum, sempre fui do baixo clero da society e entrava nas festas meio de penetra com algum amigo ou quando tinha que pagar entrada. Todos se conheciam e muitos da geração da minha mãe (incluindo ela!) passavam o ano inteiro esperando pelos quatro dias de folia momesca nos clubes da cidade.
Fantasias sempre foram bem vindas e as camisetas como entrada de festa só foram instituídas nos anos 90.
Enquanto tudo isso acontecia, eu já adolescente, ia aproveitando o que dava pra aproveitar, mesmo sem grana ou títulos de clubes importantes.
Cheguei a ir várias vezes para a Deodoro ver os desfiles das escolas de samba, blocos tradicionais e das tribos de índios, que confesso, sempre foram uma grande incógnita para mim desde aquela época.
Como o meu horizonte era pequeno, achava tudo grandioso e a quantidade de gente aglomerada dava a dimensão da cidade. Era realmente tudo muito grande para o meu mundo, e também muito divertido.
Os cortejos vinham do bairro da Madre Deus, Lira, Belira, Codozinho, Caminho da Boiada, Vila Gracinha e passavam pela Rua do Passeio, São Pantaleão até chegar na Praça Deodoro e dispersar pela Rio Branco.
Nos bairros, as festas também tinham vez e os vizinhos faziam batucadas e festas regadas a muita maisena. O ápice das festas de bairro era quando caíam as famosas chuvas, que banhavam nossa alma de frescor e alegria. A maisena escorria e quanto mais lambuzados, melhor ficava a festa.
Não dava pra pensar em chapinha ou escova no carnaval. Tínhamos que sair com os cabelos rebelados mesmo e nada de roupinhas novas. A maisena ou mesmo os talcos variados (também usados como alegoria de carnaval) faziam parte da brincadeira e “se zangar” era muito pior!
Aos poucos fomos tomando gosto pelas coisas da nossa terra e as músicas de compositores maranhenses e dos blocos locais foram ganhando espaço...

(Continua mês que vem)


Coluna Ócio, Viagens e Gastronomia/Jornal Cazumbá Jan/2010

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Patinhas de caranguejo ao molho vinagrete

O vinagrete do jeito que eu gosto...

Ingredientes
1Kg de patinha de caranguejo (de preferência do Maranhão, hehe) 2 tomates maduros 1 cebola 1 pimentão verde (que pode ser o da sua preferência) 1 maço de cheiro verde (se você preferir) ou apenas cebolinha 2 limões Sal Azeite para temperar
Modo de preparar
Afervente as patinhas em água com umas pitadinhas de sal. Veja bem, aferventar não é ferver. Basta abrir fervura e elas começarem a ficar cor de rosa, é pra tirar do fogo. Reserve e deixe esfriar. Se ficarem muito tempo no fogo elas ficam duras e na verdade elas devem ficar macias. Após lavar os legumes, corte em pedaços uniformes e bem pequenos, assim como o tomate (que é uma fruta). Para mim, quanto menor, melhor. Misture todos os legumes cortadinhos num bowl, tempere com o suco do limão, sal e bastante azeite. Acrescente um pouco de água filtrada para dar um pouco mais de molho ao vinagrete. Arrume as patinhas num refratário deixando-as com o "cabinho" pra cima. Dessa forma fica mais f…

Raposa, MA - passeio náutico que vale a pena!

Em meio às férias, resolvemos passear de barco pela Raposa, município da área metropolitana da Ilha de São Luís.
O município é pequeno. Grosso modo, deve ter por volta de 35 mil habitantes no máximo.
Tem uma cultura pesqueira muito interessante e também é um polo rendeiro de destaque em São Luís.

A cidade em si, não é muito atraente. São ruas estreitas, com casas, em sua maioria, de madeira, que lembram palafitas, no sentindo mais geral do termo.
Percebe-se a falta de saneamento básico na cidade e uma certa desordem urbana. Basta para isso, percorrer suas ruas para entender do que estou falando. Banheiros improvisados próximos aos mangues e muito lixo acumulado nas ruas e entre as casas é um dos retratos mais gritantes ao darmos uma volta perímetro urbano.

A Raposa surgiu como uma colônia de pescadores, com início na década de 40 do século passado, por pescadores vindos do Ceará e rapidamente tornou-se um reduto cearense, com as mulheres rendeiras desenvolvendo seu trabalho e os pesc…

Óleo composto de soja e oliva. Não caia nessa!

Esses óleos compostos que tanto enganam os comensais espalhados por ai foram feitos para cozer, não para derramar em cima do prato pronto! Foram criados como uma alternativa para quem está com o orçamento apertado ou não tem costume de cozinhar com azeite de oliva.  Para um prato refogado, por exemplo, fica muito saboroso. O problema é que pelo fato de ser mais barato, os donos de alguns restaurantes de segunda, terceira, quarta e quinta categoria substituem o tradicional azeite por esse composto e a turma desavisada, derrama com gosto em cima do prato. Uma maldade! Vejo o povo jogando em cima da salada, sendo que em todos os compostos, 95%  é de óleo de soja e apenas 5% é de azeite (não extra-virgem!). Esperteza do restaurante que ganha por um produto de qualidade inferior e lerdeza do consumidor que não lê o que está consumindo. O consumo de azeite no país tem crescido assustadoramente, à proporção que  a gastronomia ganhou status de ciência e o poder aquisitivo da população melhorou.  De…