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Carta ao Panetone por Rosana Hermann

Gente, como adoro o jeito inteligente que a Rosana Hermann escreve.
Me senti escrevendo para o panetone, que este ano, só passou pela minha linda boquinha duas poucas vezes e não mais chegará perto, assim como ela afirma.
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Querido Panetone,
Estou aqui pertinho de você. Eu me sinto o Britto Jr. dizendo pra Janaína: "calma, eu estou aqui". Não tenha medo, Panetone, nada de ruim vai acontecer, nem pra você nem pra mim.
Eu te amo, é verdade. Amo cada mordida em sua constituição doce. Mas não podemos viver assim. Eu, cortando você em pedaços e você me engordando sem parar. Quando o amor deixa o casal infeliz é hora de parar. Amor não é sofrimento.
Vamos continuar amigos, mas cada um na sua. Não vou mais comer você, beliscar você. Parei com esse bullying. De agora em diante vamos viver cordialmente, mas sem pegação.
Mesmo porque, apesar da sua massa macia e suave, tem aquelas frutinhas cristalizadas de toda relação, aqueles  detalhes que relevamos e que acabam destruindo o relacionamento.
Estou abrindo mão de você, panetone, por um mundo melhor. Acredite, vai ser melhor pra nós dois. Você fica com sua integridade e eu, com minha cintura.
A vida é dura, mas todo dia é dia de aprender a abrir mão de um pequeno prazer passageiro, em nome da saúde de um ano inteiro.
Não pense que sou ingrata. Continuarei olhando você com ternura e desejo, mas sabendo que já não nos pertencemos mais. Respeito sua posição vertical, sempre ereta e apetitosa, imponente, elegantemente vestido em suas vestes marrons e seu sobretudo de celofane decorado, sob seu chapéu da caixa amarelada. Mas acabou.
Adeus, Panetone.
Foi doce, foi bom, mas deixou marcas que agora a blusa comprida precisa encobrir.
E pra arrancar você de mim, vou ao Pilates correndo.
Na chuva.
Ah, as dores do amor glutão!

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