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Um novo olhar

Tudo começou quando fui tentar ensinar como se faz beiju, iguaria conhecida no Sudeste como tapioca.
Bastou precisar de um “crivo” para saber que não falava a mesma língua dos paulistanos. Crivo para nós, é peneira em São Paulo. Assim como o crivo tem um codinome diferente, inúmeras palavras também tem.
Outro dia comentei que uma senhora estava com os cabelos assanhados e ninguém entendeu, como se “se assanhar” não representasse algo fora “do normal”; apontei uma osga e saí correndo de medo e de novo, o povo achou que eu tinha enlouquecido, porque ninguém conseguiu ver nada além de uma lagartixa se escondendo de mim.
Uma glândula é algo inexplicável. Não sabem o que é! Marocar a vida do povo é fofocar, mas convenhamos, fofocar é muito universal, muito corriqueiro. Marocar dá um tom piadista pra frase, não dá? Vem desse termo o nome próprio “Maroca”, pessoa normalmente perto da terceira idade que “dá conta” da vida de toda uma rua ou família, por exemplo.
O verbo “ferir”, palavra forte, geralmente associada a dores de amor, arrogância ou ferimentos também não é muito usual. O termo “machucar” substitui bem e falar “me feri” causa espanto!
Um país com dimensões continentais não poderia deixar de ter essas dualidades e dicotomias. A vida é feita de comparações e o diferente é motivo de discussões, reflexões e análises psicossociais.
Isso sem falar do sotaque, que é uma bandeira que carrego em todos os lugares. Basta dar “bom dia” que todos perguntam de onde sou. Basta falar qualquer palavra com o meu “r” que a seta de nordestina aparece feito neon em cima da minha cabeça.
As diferenças não são sutis e nem o preconceito. Percebe-se em tudo e em todos.
Quando criança, lembro bem da professora falando sobre as diferenças do Brasil e explicando que isso era lindo e que compunha um país diferente e plural. Aprendi assim. Cresci enxergando o mundo assim!
Uma amiga do Piauí falou do nosso “olhar” e mal pude enxergar a importância disso para o ludovicense. Depois de muitos exemplos, fui perceber que falamos o verbo “olhar” com a mesma facilidade que falamos um simples “oi”. Vejamos:
Situação 01:
-Joãozinho, tu tens olhado Mariazinha?
- Ah, olhei por esses dias andando na Rua Grande.

Situação 02:
- Menina, tu nem sabes com quem olhei Joãozinho?
- Com quem?

E assim vamos usando o verbo “olhar” para tudo e esquecendo o verbo “ver” para diversificar o vocabulário, coisa muito diferente no resto do país.
“Olhar” e “ver” são verbos similares, mas não são iguais. Olhar tem uma conotação mais profunda, remete a olhar dentro dos olhos, olhar na alma e enxergar o melhor de tudo e de todos. Ver é verificar alguma coisa de forma superficial e você muitas vezes vê, mas não enxerga!
São Paulo é a maior cidade da América Latina e cercada de superlativos. São Luís é a capital do estado mais pobre do pais e também usa um superlativo para se destacar no cenário nacional. Ambas com extremos.
Talvez quem sempre “olha” para as coisas veja o mundo com outros olhos e quem muito vê não enxergue a beleza e as diferenças que fazem do Brasil o país mais encantador do mundo.
Vou continuar "olhando" o mundo por muito tempo ainda...

Até a próxima!

____________________________________
Jornal Cazumbá, agosto 2010.

Comentários

Dona Karen disse…
Olha essa tua mudança na vida acrescentou algo diferente em teus textos.
Você sempre valorizou o que é nosso, mas agora isso fica mais latente e a riqueza das diferenças então nem se fala.
Agora outros comentários..rsrrsr fofoca ou marocagens rsrrs
Por causa da distância e da saudade todo vai comentar mais e isso é tão bom. né amiga
Sentir o carinho de todos por ti. Acho lindo!
Então tá, voltando ao post já tinha conversado com Jamille sobre isso e ela percebe um certo preconceito dos paulistas com nós nordestinos, e ela disse que sente muita falta de falar as doidices que conversavamos na hora do almoço por aqui...é isso. Bjos!
eita vida boa meu deus....rs...
Anônimo disse…
pois é minina, tu vais imbora, sem nem si quer mi da um chero, mas num tem nada não, um dia agente se incontra, ai tu ja viu, vai chero de tudo qui é jeito. Só ispero que tu tenhas levado tua anaguas e calçolas para te proteger du frio qui ta fazendo nessa tal de sum paulo.
Abraços em você e diga pro Italo que não mando nada para ele, a final ele robô tu de nois.

Reginaldo Rodrigues

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