quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Um novo olhar

Tudo começou quando fui tentar ensinar como se faz beiju, iguaria conhecida no Sudeste como tapioca.
Bastou precisar de um “crivo” para saber que não falava a mesma língua dos paulistanos. Crivo para nós, é peneira em São Paulo. Assim como o crivo tem um codinome diferente, inúmeras palavras também tem.
Outro dia comentei que uma senhora estava com os cabelos assanhados e ninguém entendeu, como se “se assanhar” não representasse algo fora “do normal”; apontei uma osga e saí correndo de medo e de novo, o povo achou que eu tinha enlouquecido, porque ninguém conseguiu ver nada além de uma lagartixa se escondendo de mim.
Uma glândula é algo inexplicável. Não sabem o que é! Marocar a vida do povo é fofocar, mas convenhamos, fofocar é muito universal, muito corriqueiro. Marocar dá um tom piadista pra frase, não dá? Vem desse termo o nome próprio “Maroca”, pessoa normalmente perto da terceira idade que “dá conta” da vida de toda uma rua ou família, por exemplo.
O verbo “ferir”, palavra forte, geralmente associada a dores de amor, arrogância ou ferimentos também não é muito usual. O termo “machucar” substitui bem e falar “me feri” causa espanto!
Um país com dimensões continentais não poderia deixar de ter essas dualidades e dicotomias. A vida é feita de comparações e o diferente é motivo de discussões, reflexões e análises psicossociais.
Isso sem falar do sotaque, que é uma bandeira que carrego em todos os lugares. Basta dar “bom dia” que todos perguntam de onde sou. Basta falar qualquer palavra com o meu “r” que a seta de nordestina aparece feito neon em cima da minha cabeça.
As diferenças não são sutis e nem o preconceito. Percebe-se em tudo e em todos.
Quando criança, lembro bem da professora falando sobre as diferenças do Brasil e explicando que isso era lindo e que compunha um país diferente e plural. Aprendi assim. Cresci enxergando o mundo assim!
Uma amiga do Piauí falou do nosso “olhar” e mal pude enxergar a importância disso para o ludovicense. Depois de muitos exemplos, fui perceber que falamos o verbo “olhar” com a mesma facilidade que falamos um simples “oi”. Vejamos:
Situação 01:
-Joãozinho, tu tens olhado Mariazinha?
- Ah, olhei por esses dias andando na Rua Grande.

Situação 02:
- Menina, tu nem sabes com quem olhei Joãozinho?
- Com quem?

E assim vamos usando o verbo “olhar” para tudo e esquecendo o verbo “ver” para diversificar o vocabulário, coisa muito diferente no resto do país.
“Olhar” e “ver” são verbos similares, mas não são iguais. Olhar tem uma conotação mais profunda, remete a olhar dentro dos olhos, olhar na alma e enxergar o melhor de tudo e de todos. Ver é verificar alguma coisa de forma superficial e você muitas vezes vê, mas não enxerga!
São Paulo é a maior cidade da América Latina e cercada de superlativos. São Luís é a capital do estado mais pobre do pais e também usa um superlativo para se destacar no cenário nacional. Ambas com extremos.
Talvez quem sempre “olha” para as coisas veja o mundo com outros olhos e quem muito vê não enxergue a beleza e as diferenças que fazem do Brasil o país mais encantador do mundo.
Vou continuar "olhando" o mundo por muito tempo ainda...

Até a próxima!

____________________________________
Jornal Cazumbá, agosto 2010.

3 comentários:

Dona Karen disse...

Olha essa tua mudança na vida acrescentou algo diferente em teus textos.
Você sempre valorizou o que é nosso, mas agora isso fica mais latente e a riqueza das diferenças então nem se fala.
Agora outros comentários..rsrrsr fofoca ou marocagens rsrrs
Por causa da distância e da saudade todo vai comentar mais e isso é tão bom. né amiga
Sentir o carinho de todos por ti. Acho lindo!
Então tá, voltando ao post já tinha conversado com Jamille sobre isso e ela percebe um certo preconceito dos paulistas com nós nordestinos, e ela disse que sente muita falta de falar as doidices que conversavamos na hora do almoço por aqui...é isso. Bjos!

Improvisos de um louco disse...

eita vida boa meu deus....rs...

Anônimo disse...

pois é minina, tu vais imbora, sem nem si quer mi da um chero, mas num tem nada não, um dia agente se incontra, ai tu ja viu, vai chero de tudo qui é jeito. Só ispero que tu tenhas levado tua anaguas e calçolas para te proteger du frio qui ta fazendo nessa tal de sum paulo.
Abraços em você e diga pro Italo que não mando nada para ele, a final ele robô tu de nois.

Reginaldo Rodrigues