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Memória Adolescente

Acabei de receber inúmeros e-mails parabenizando o texto que falo da minha adolescência. Embora seja enorme, resolvi publicar aqui.
Estou muito feliz com tamanha repercussão. Obrigada Família Carneiro!
Aí está ele.
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Coluna ócio, viagens e gastronomia - Jornal Cazumbá de maio.
Bastava chegar o São João para eu poder sentir o gosto das minhas férias nas mãos.
O São João em si não me animava tanto naquela época! Adolescente tem dessas coisas. Acha a cultura regional piegas e prefere importar hábitos e costumes.
O que me animava mesmo, contrariando o costume adolescente dos meus amigos, era a possibilidade de ir para o interior e passar o mês de julho inteirinho livre das amarras da cidade, com os pés no chão, sem horário pra almoçar nem tampouco dormir. As minhas férias tinham um cenário bucólico, com cheiro de maresia e música da Legião Urbana.
A preparação das férias se dava com a preamar, já que para chegar a Miritiba a viagem era longa e dependendo da maré, a lancha tinha saídas desde as 17h até as 04h da manhã.
A saída era do Porto do Barbosa em São José de Ribamar e devido a isso, minha relação com aquela cidade balneária sempre foi muito próxima. O Porto não nos oferecia muita coisa, somente era o elo entre a minha vida urbana e a minha vida de sonhos.
O Iate Duas Nações, nosso transporte oficial, era grande, tinha uma lotação máxima de 300 pessoas, mas cabia 350, fácil, fácil. O emaranhado de redes armadas dava a ideia de uma grande teia que deixava o clima bem familiar. Além das redes, isopores com todo tipo de mantimento, assim como caixões (isso mesmo que você leu!), material para construção, botijões de gás, móveis e tudo o mais que sua imaginação permitir, disputavam conosco um espaço dentro daquele transporte, que afinal de contas, era o único meio de levar algo ao isolado Município.
Chegávamos cedo em São José de Ribamar para podermos armar as redes na lancha e assim garantir o sono, não tranqüilo, mas possível. O “frito” ia na lata de leite ninho e não há nada nesse mundo que se aproxime do cheiro daquela comida. Mamãe preparava desde cedo e havia até uma certa disputa entre nós viajantes, para saber quem levava o mais gostoso.
Chegada a hora, embarcávamos em canoas com catraeiros zoadentos para só depois subirmos na lancha e iniciarmos a maior aventura do ano: a viagem de travessia da Baía de São José de Ribamar a Humberto de Campos (a antiga Miritiba).
A maresia era tanta que o limão ou a tangerina eram companheiros inseparáveis. A viagem era um misto de aventura e terror, dadas as devidas proporções.
Passada a baía de São José de Ribamar (2 horas aproximadamente), entrávamos na dos Tubarões e por fim na Baía de Sarnambi. Totalizava de 8 a 10 horas, sendo possível até uma aventura de 15 horas, que eu mesma presenciei. As paradas saindo de Ribamar eram “Mamuna”, “Mucunandiba”, “Macacueira” e Primeira Cruz, até chegar nas minhas tão esperadas férias.
Durante a travessia, eram comuns as paradas da lancha para encostarem canoas com gente e muita mercadoria vindos de Cedro, Ilha Grande, Ilha do Gato e outros. Era muito bom ver aquela “arrumação”. Gritaria, gente subindo e entrando ao ritmo das águas e um malabarismo digno de brasileiro, nordestino, pobre e feliz.
A chegada em Humberto de Campos era um acontecimento tanto pra nós, quanto para os humbertoenses que viam naquele movimento o grande ápice da cidade: o Festejo de Nossa Senhora Sant’ana, celebrado por todo o município no mês de julho.
Minha felicidade só era completa quando ao descer da lancha, via logo a minha avó e rainha, à minha espera, toda sorridente e feliz. Ao seu lado sempre tinha um estivador pra retirar nossas bagagens do porão do iate. Era realmente uma tarefa difícil.
Pronto! Estava alinhavado o mês mais feliz da minha adolescência.
Daquele momento até o final do festejo, minha vida era recheada de brincadeiras, sorrisos, pé no chão, banhos de rio, dindin de côco, pastel recheado com farofa de camarão, bolo de tapioca, de massa, cocadas, peixe cozido com caju azedo, peixe assado no fogareiro, pirunga, murici e mirim, leilão, cordão de São Gonçalo, procissão e ladainhas em latim. As louças e as mãos eram lavadas no jirau, a energia apagava as dez da noite e a dormida era embalada com o coaxar dos sapos à luz de lamparina.
A praça era o ponto de encontro mais disputador por nós, assim como o “morro”. As primeiras paqueras foram naqueles ambientes, embora vovó rezasse o terço na minha chegada alertando para os limites da moral: “Nada de ir pro “morro” de noite menina. Aquilo é coisa de mulher da vida!!!” E eu e minhas amigas, ingênuas na época, burlávamos os olhares das nossas avós e acabávamos dando uma escapadinha por lá. Sinceramente, não tinha nada demais.
Não tínhamos nenhuma preocupação ou compromisso, somente o jogo de bola do dia seguinte ou quem sabe um passeio ao Rio Periá.
Na hora de voltar pra cidade, lembro bem da dor que sentia e de chorar muito com saudade de tudo que vivia por lá. Grandes amigos...
Hoje Miritiba chama-se Humberto de Campos, meus amigos cresceram, as lanchas acabaram e chega-se por lá em duas horas e meia por uma estrada boa, a BR-402.
Não é mais uma cidade bucólica, não faz mais friozinho à noite, as crianças não mais brincam de roda e um certo nível de progresso chegou por lá. O leilão na porta da igreja continua sendo freqüentado pelas mesmas pessoas de antes e nós, que crescemos vendo aquilo, mas os adolescentes de hoje, que representam muito para o futuro da cidade não frequentam porque acham piegas e preferem importar hábitos e costumes.
A cidade hoje tem padre e as ladainhas estão escassas. As missas são iguais às da capital. O “morro” por uma ação conjunta naruteza + homem, está sumindo e os banhos de rio já não são mais os mesmos.
Não como mais pastel recheado com farofa porque duvido da sua procedência. Do dindin também! O bolo de tapioca e de massa, graças a Deus, vovó ainda faz, mas cocada não! Pirunga e mirim estão raros. O murici ainda faz fama por lá. A energia não acaba mais as dez e tanto as lamparinas como o urinol, viraram peças de decoração.
E meus amigos adolescentes “da cidade” não entendiam como eu podia trocar 15 dias na Disney pelas minhas férias no interior.
Você entende?

Comentários

Dona Karen disse…
Menina escreve um livro, vai ser um sucesso!!! Eu adorei!!!
Acho que nós aqui fomos privilegiados por ainda termos tido essa infancia! Minhas férias eram em Canelatiua e São João de Cortes (povoados de Alcantâra) e Pinheiro na Baixada Maranhense... ô TEMPO BOM!!!!!
Bjos querida!
Anônimo disse…
Chorei lendo... Me lembrei da minha infância... Quero que minha filha também tenha a oportunidade de ser feliz assim.
Eraldo Oliveira disse…
que lindo,tambem passei minha infancia andando para essa regiao,que saudades,as viagens de lancha,me lembro o nome de todas elas,infelizmente ta tudo mudado,da vontade de chorar so em lembrar daquele tempo bom,quanta saudade...

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